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Consultoria de estratégia e liderança

As habilidades essenciais do músico de jazz… e do empreendedor

Continuando nosso artigo anterior, sobre as semelhanças fascinantes e “educativas” entre o jazz e o empreendedorismo, aqui vão algumas analogias sobre as habilidades essenciais das duas artes.

Jazz vs. Clássico

O jazz é mais uma arte do intérprete, enquanto o clássico é mais uma arte do compositor.

Numa peça clássica o músico tenta recriar o que o compositor tinha em mente. Doze gravações da Nona Sinfonia de Beethoven soam bastante parecidas. Ouça doze gravações de “In a Sentimental Mood”, de Duke Ellington, e nem mesmo a melodia vai parecer a mesma, de um intérprete para outro. Isso sem falar nos improvisos que cada um intercalará em suas execuções.

A individualidade é encorajada, buscada, premiada e absolutamente necessária para a sobrevivência do jazz como expressão artística.

Voltamos aqui ao tema da implementação e da flexibilidade a ajustes e mudanças versus a abordagem planejar-executar-controlar.

O projeto do empreendedor é uma expressão e se subordina à sua vontade e às suas (boas ou más) escolhas. O projeto corporativo é a expressão do planejador e da hierarquia.

Solista vs. Maestro

A maioria das performances de jazz dispensa um maestro e, apesar disso, o tempo/velocidade permanece constante. Como?

Uma das razões principais é que a maioria das performances de jazz inclui um grupo de músicos responsável por manter a velocidade estável. Cada intérprete é responsável por tocar “no tempo” e manter a velocidade, mas é o grupo rítmico que estabelece a base e provê estabilidade.

O grupo rítmico padrão consiste em um pianista, um baixo e um baterista. Cada um destes instrumentos tem um papel específico no suporte ao solista…

… ou seja, ao empreendedor:

BAIXO – O FUNDAMENTO

Seja um baixo acústico ou um baixo elétrico, sua função é a mesma: estabelecer a base para os acordes do piano e para a improvisação do solista.

Há muitos estilos de performance de baixo mas o mais comum é o “walking bass”, no qual o músico toca uma nota a cada batida do ritmo. Isso provê um fundamento sólido para o resto do grupo. As notas que ele decide tocar são, em geral, as mais importantes dos acordes de acompanhamento.

Na rede de suporte que o empreendedor recruta, o “cliente-inaugural” (ou “padrinho”) é aquele que não apenas viabiliza o início do negócio, mas que ditará a capacidade inicial de faturamento e crescimento, de geração de referências para novos prospects e de oportunidades/necessidades de ajustes do produto e serviços oferecidos.

PIANO – A HARMONIA

O piano provê a harmonia porque é capaz de tocar mais de uma nota ao mesmo tempo. Os acordes (múltiplas notas tocadas simultaneamente) são tocados no ritmo escolhido pelo pianista.

Todo pianista de jazz tem seu próprio estilo de ‘comping’ (abreviatura de ‘accompanying’) isto é, de tocar o acompanhamento ao solista.

Quando o pianista sola, ele em geral executa a melodia (o solo) com a mão direita e usa a esquerda para continuar a marcar os acordes.

Um dos critérios de avaliação de muitos investidores de venture capital é se o empreendedor tem um parceiro. “Um vende o outro constrói” é a ortodoxia da tese de “empreendedores parcerios”. Realmente, da criação do império romano por César e Marco Antônio à criação do Google por Sergey Brin e Larry Page, alguns dos empreendimentos mais bem sucedidos de todos os tempos foram obras de grandes líderes que tiveram grandes parceiros.

O parceiro, organizador da retaguarda e garantidor da produção e entrega, é o “pianista” que ‘comps’ o empreendedor solista.

BATERIA – ENERGIA E ESTABILIDADE

Um dos responsáveis por fazer o grupo “swing”, provendo uma grande parte do impulso e estabilidade para o conjunto, o baterista é o marcador do tempo.

O investidor, principalmente o “anjo” inicial, pode exercer o papel importante de “marcar o tempo” para o time do empreendedor: marcos de progresso (milestones) que precisam ser atingidos, para que se realize mais um aporte de capital; critérios de avaliação de progresso/sucesso; incentivos financeiros ao crescimento sustentável – todos são contribuições que um bom investidor parceiro pode agregar ao empreendedor.

As habilidades essenciais do músico de jazz

Todo músico necessita de certas habilidades, mas o músico de jazz (o empreendedor) precisa de um conjunto adicional de talentos. Alguns deles são, em grande parte, impossíveis de ensinar.

1. Excelência de execução em seu instrumento – o intérprete de jazz precisa ser capaz de traduzir o que “ouve” em sua cabeça, para seu instrumento, instantaneamente.

O empreendedor de sucesso precisa conhecer seu mercado e seu negócio: processos, necessidades do cliente, tendências do mercado, da tecnologia, etc.

2. Ouvido. Além de afinado, como todo músico, o intérprete de jazz precisa reconhecer e navegar em melodias e motivos sugeridos pelo pianista, mesmo quando este executa acordes “alterados”, em que notas são substituídas para tornar a música mais interessante.

O empreendedor também precisa ser capaz de reconhecer rapidamente quando um novo “motivo” está emergindo, se desviando e exigindo ajustes em sua oferta/visão inicial. Ele precisa ser capaz de ouvir, interpretar corretamente e reagir às mensagens dos clientes, da equipe comercial e do management em geral.

3. “Multiplexar”. O músico de jazz precisa pensar à frente, compor, editar e tocar, quase sem pensar.

Da mesma forma, o empreendedor de sucesso é capaz de planejar, comandar, executar e performar o dia-a-dia, tudo ao mesmo tempo.

4. Atuar em equipe. O bom músico de jazz tem a habilidade de ouvir e interagir com o grupo e de contribuir para a boa performane do conjunto.

A analogia é claríssima. Desnecessário dizer mais.

Estas são algumas das habilidades adicionais, que permitem ao músico/empreendedor atingir o patamar em que inspiração e criatividade estão em pé de igualdade com a capacidade de executar.

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