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Consultoria de estratégia e liderança

O jazz e a arte de empreender

 

A história é famosa: uma jornalista pergunta a Louis Armstrong “o que é o jazz, Mr. Armstrong?”. E o músico responde: “Senhora, se você não sabe, é melhor não se meter com ele”.

Apesar de aos poucos ir surgindo uma boa literatura que explica o que é empreender, da mesma forma que Louis Armstrong, mesmo os empreendedores de maior sucesso têm dificuldade de explicar a diferença entre empreender e conduzir, por exemplo, projetos de investimento em grandes empresas.

Esta semana eu me deparei com o texto de algumas aulas sobre jazz, do Kennedy Center e não pude deixar de traçar mentalmente alguns paralelos com o empreendedorismo que, creio, podem ajudar a explicar o que é empreender. Porque, tal como o jazz, quem não tem idéia do que está envolvido no ato de empreender, é melhor não se meter com ele.

Os elementos do Jazz

Lembre-se que o jazz é basicamente um estilo musical e tem muito em comum com outros estilos, mas também trata os elementos básicos da música de uma forma única.

Da mesma forma, empreender é uma atividade de negocio, tal como as das grandes empresas, mas executada de forma bem diferente dos empreendimentos corporativos. Ser um executivo de sucesso não capacita você, automaticamente, a ser um empreendedor de sucesso.

Primeiro elemento: a Interpretação

A interpretação do jazz é a forma como o músico trata uma melodia. Qualquer melodia pode ser executada de forma jazzística, dando-se um toque de tercinas (triplets – três notas inseridas num rítmo quaternário, 8:8 etc.) sobre o rítmo básico.

Uma prática comum do músico de jazz é fazer referências a melodias de várias origens – até mesmo clássicos – em seus solos. Nós dizemos que o tempero de tercinas na execução dá “swing” à música.

Este tempero de tercinas contrasta diretamente com o ‘feeling’ padrão de grande parte das músicas. O triplet dá um tom muito mais solto e “swingado”. A capacidade de tocar com swing é essencial para o músico de jazz.

Nos empreendimento corporativos o desvio do planejado é sinônimo de erro e, possivelmente, de incompetência. Na realidade do empreendedor, o desvio da idéia original é a norma.

O empreendedor de sucesso é aquele que não fica apegado a sua visão e suas premissas iniciais, mas sabe interpretar o imprevisto como uma mensagem de que mudanças são necessárias e, provavelmente, conduzirão em um resultado melhor. O empreendedor ‘swings’ conforme dita a necessidade e seus movimentos são mais ágeis e mais eficientes do que a abordagem rígida e monolítica dos empreendimentos corporativos.

Segundo elemento: Improvisação

Talvez o elemento mais importante e mais difícil de dominar – a grande maioria dos músicos passa a vida trabalhando para desenvolver esta habilidade – é a improvisação.

Esta é a habilidade de compor, editar, trasformar e performar instantaneamente. É o elemento mais importante pelo qual o músico de jazz é avaliado e pelo qual ele se torna imortal.

É um habilidade incrivelmente complexa, que engloba todos os demais elementos, não somente do jazz, mas da própria música. É o que faz do jazz, jazz.

O jazz não é a única música a usar a improvisação, mas ele a usa num grau muito maior do que qualquer outro estilo musical. Através da improvisação o intérprete expressa sua individualidade a cada momento.

Compare  a forma como as corporações e os empreendedores de sucesso abordam o ato de fazer novos negócios: a abordagem corporativa é a de buscar e selecionar oportunidades. A do empreendedor é praticamente o contrário: ele parte de uma oportunidade que enxergou e analisa se essa oportunidade tem a ver com ele, com o conhecimento que ele possui e com a rede de relacionamentos que é capaz de mobilizar para pôr o negócio em andamento.

É um jeito muito mais particular, individual, de empreender; fortemente baseado na capacidade de fazer-com-o-que-tem e fazer diferente do restante do mercado.

Terceiro elemento: Tempo

O tempo é a velocidade com que uma música é executada. No jazz em geral o tempo permanece estável do início ao fim da execução.

Isso não é uma característica única do jazz, mas as variações de tempo – os ‘ritardos’ e ‘acelerandos’ – que fazem parte da maioria dos estilos musicais estão ausentes da maioria das performances de jazz.

Talvez o aspecto em que quase todos os empreendedores de sucesso mais se assemelham é a persistência. Ao contrário da maioria dos projetos – corporativos ou pessoais – que sofrem paradas constantes, “esquentam e esfriam” ao sabor das circunstâncias, o empreendedor de sucesso raramente esmorece em seu projeto. Seu progresso pode não ser constante, mas sua energia investida é.

Tal como o solista de jazz, para ter sucesso o empreendedor precisa dominar um conjunto de técnicas, mas também ser capaz de mobilizar uma rede de suporte para seu empreendimento. Leia no próximo artigo desta série, quais são essas técnicas e qual é o conjunto mínimo de “músicos acompanhantes” que o empreendedor deve recrutar para sua “performance”.

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  • Pingback: As habilidades essenciais do músico de jazz… e do empreendedor » Table Partners()

  • Eramir Fernandes Jr.

    Muito bom! Gostei e foi no momento certo que isso chegou em minhas mãos.

  • Mauro Mello

    Que bom, Fernandes! É sempre bom ser útil na hora certa. Swing it!

  • Prezado Mauro,
    Vou dar uma palestr em um workshop sobre o Jazz, suas origens e influências na cultura global, na Escola Livre de Música (São Paulo), no início de novembro.
    Gostaria de citar seu nome e o link para seu artigo pois exemplifica bem a influência do Jazz sobre a ciência da administração.
    Peço sua concordância, por gentileza.
    Decimo Mazzocato Jr
    Eng. Mecânico Mack-1966
    Swiss College Dixie Band
    banjo e guitarra

  • Mauro Mello

    Sem dúvida, Decimo, faça uso e citação do artigo à vontade. Fico honrado e satisfeito de ser útil.
    Boa palestra para você! Espero que seja um sucesso.
    Mauro